-Por que a gente vive, hein?
O pequeno respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, como se todo mundo soubesse essa resposta, assim como se sabe que dois mais dois são quatro:
-Porque tem que viver, ué!
10/12/2008
-Por que a gente vive, hein?
O pequeno respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, como se todo mundo soubesse essa resposta, assim como se sabe que dois mais dois são quatro:
-Porque tem que viver, ué!
10/12/2008
-Alô Gugu, isso são horas? - mas que horas eram aquelas? Eu não sabia bem.
- Uaah, Gian! A gente ta aqui na frente. Tá?
- Mas..?! Tá...
Desliguei e logo olhei o relógio. “02:33”. Levantei e vesti o casaco. O rádio mostrava que o cd do Maná tinha há muito parado de tocar, deixando a luz vermelha da última faixa iluminando o quarto. Desliguei também o rádio, coloquei os chinelos de pano e fui para frente de casa. Só os bruxos pra fazer uma coisa como aquelas! Abri a porta de ferro e vi o Fiesta parado em frente ao portão, de um lado a silhueta do Gugu, do outro, a do Rato, e esse conversava com um terceiro que estava ainda sentado dentro do carro. Sorri e disse:
- “Fala pra mim que você não fez isso”...
- Gian, tira essa roupa e vamo no Rock! - Os olhos ainda estavam sonolentos, o frio subia sorrateiro pelas minhas pernas, e alguma coisa no meu cérebro avisava qualquer coisa sobre uma prova de vestibular que eu faria amanhã. Não... hoje! Fiquei pensando um pouco, olhei para os próprios pés e esfreguei os olhos.
- Ta, já venho aí...
Quando fui lavar o rosto para sair, sem querer deixei entrar sabão nos olhos. Ardeu.
- Digita aí o nome da mulher
- Fala.
- Maria Elaine de Oliveira Pênis.
- O QUÊ?
- Ta escrito aqui...
- Deixa eu ver! Dá aqui!
- To...
- Maria Elaine de Oliveira... Pinto!! Ah, seu trouxa!!
- Devia ter visto a tua cara...
- Bom, é um nome bem incomum, fiquei espantado, claro...
- Que nada, tu tava é louco pra ver um pênis.
27/02/2009
O banheiro estava maior do que o normal. Estava com as paredes vermelhas. As pias alongavam-se na parede da esquerda, com um espelho enorme. Os mictórios ficavam à direita. Lá no fundo, duas casinhas com vasinhos. Percebi um cara num dos mictórios, e outro a pentear os cabelos recém molhados. Olhei através do espelho para o rosto dele. Era eu quem estava ali.
Cheguei mais perto, analisando suas roupas de branco impecável, camisa abotoada, relógio dourado e um óculos supermoderno. Usava sapatos do tipo que tem fivela de metal. Fiquei ao seu lado e fitei o seu rosto. Sua inteligência madura dizia que era mais velho que eu por alguns anos. Os olhos eram de um azul límpido, mas convicto. A pele resplandecia lisamente sem nenhum pelo. Seus cabelos brilhavam a luz amarelada do teto. Ele não sorria, mas seu rosto era alegre, nenhuma marca de sofrimento. Ou seria a lividez de um rosto que já muito sofrera? Não sei se vi direito, mas do bolso da camisa saltava um diploma. Ele terminou com o cabelo, olhou para mim tranqüilo, com o olhar atencioso daqueles que sabem que o outro precisa de alguma palavra exata.
- Garoto, o mundo pode parecer horrível às vezes, mas essa é uma impressão errônea e pontual. Pode não parecer, mas tudo isso que você está passando vai terminar em algo muito melhor!
Então aquele meu “eu” mais velho sorriu, ajeitou a gola e saiu caminhando tranqüilamente.
Nisso, veio limpar-se o outro cara, que estava no mictório. Seu andar era pesado e esnobe. Calçava os mesmos tênis que eu. Camisa preta meio surrada e calças jeans desbotadas. Olhei para o seu rosto. Por entre a barba espessa, vi outro de mim. Ele era ainda mais velho que o outro.
Este tinha os olhos turvos. Olhou-me como a perguntar o que eu queria, por que o estava encarando. Sorriu com desprezo e foi lavar as mãos. Ficou muito tempo naquele trabalho, e eu não tirei os olhos de cima. Parecia distante, compenetrado ao extremo para formar alguma frase difícil. Os cabelos eram revoltos. Um brinco de vidro na sua orelha esquerda reluziu.
Finalmente, fechou a torneira. Olhou com inveja para mim.
- Guri, não fique com esperança numa frase com reticências. Entenda-as como um não. Difícil é; eu que sei. Eu não fiz isso e agüento até hoje. Se eu tivesse me concentrado em estudar ou qualquer outra coisa que não fosse ela, esse brinco hoje seria de diamante.
Sua voz saíra rouca e com odor de cigarro. Ficou olhando por sobre mim algum tempo. Em seguida, saiu trôpego pela porta. Os olhos dele tinham um brilho estranho. Ele tinha esquecido a braguilha aberta.
Estava eu ali, sozinho no banheiro vermelho, confuso. Aquilo tinha mesmo acontecido? Eu bebera bastante, mas não o bastante pra aquilo. Sacudi a cabeça para afastar os pensamentos distorcidos. Pensei nela.
Sacudi a cabeça mais uma vez, e fui até um dos vasinhos me aliviar.
18/10/08
- Gian Marelli! - exclamou o professor louco de português, enquanto ia entregando os trabalhos para os alunos que já haviam sido chamados e iam até a mesa dele para pegá-los. Levantei e caminhei tranqüilo até a sua mesa.
Peguei a folha. Ele disse, sorrindo:
- Muito bom, Gian!
Olhei para ele, sorri com modéstia.
- Obrigado.
- Muito bom, legal mesmo cara! - ele enfatizou.
Mantive o sorriso. Olhei para a classe: mais ou menos trinta alunos me fitando. Uns sorriam, outros estavam sérios. Reconhecimento. Admiração.
- Obrigado!
E caminhei até o meu lugar, o peito inflado. O sorriso simples, mas completo.
“Desta vez era para ir à uma rave em Lomba Grande, e eu nunca havia estado em uma rave.
Eram conhecidas de não-sei-quem e estavam ali para ir pro mesmo lugar que nós. Depois de mais duas cervejas ouvindo aquele papinho, embarquei no carro e partimos.
(A última frase foi sublinhada em vermelho pelo professor. Do lado esquerdo da margem estava escrito, no mesmo vermelho: “muito bom”!
“Acabaram os cigarros e o sono veio até mim com aquela conversinha agradável e relaxante.
Convenci-os a ir embora e, pisando na lama, fomos para o carro.
Entretanto, eu desconfiava que talvez não viesse a cumprir a promessa”.
11/11/08