"Até mesmo o silêncio é um texto."

segunda-feira, 31 de julho de 2017

"When you've got nothing, you've got nothing to lose".
That's how the song goes. It is true, yet we don't really want to be in such a state. We might be tempting it during the five-minute song, but no human desire the loneliness of having absolutely nothing.
And then, what about havung everything? Is that even "achievable"? Is there a stage when the "fella" sits down at the end of the day and goes like "well, that's it. I've done it. I can rest now."
I suppose it doesn't take a psychologist to say there isn't. However it may be possible to experience a sense of plenitude for a moment. A moment of glory.
For some, it might be getting home earlier than expected. Others may see it in grabbing that sough-after certificate, maybe graduation. Being the first in a competition. A few may feel it inside a loved one's hug, or just by looking at their partners sleepy face in a usual weekday morning.
For most of us, the feeling fades next. It may linger a bit more for those all-positive-and-lively, but it does fade sooner or later. And then runs the circle. You have to go around again and again to find some more pleasure or achievement or anyway you want to call that sensation. Some of us get tired of it - not the feeling, but the quest for it. Those find their stage - or rather create it - a point in time when they are confident to say "this is where I want to be." Pessimists will point out: "You could have a better car, you know... You've got three mouths to feed, you know... your house is falling to pieces, you know". And they reply "I've got a family, I've got everything. I've got enough to live and be happy!"
And, in fact, happy they go. And happy they live. And happy they piss and shit and go round and round. And I stare in both disgust and envy, wishing I could be just like that.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Estar ou não estar, eis a questão.

Estava agora mesmo no chuveiro, que - assim como o vaso - é berço de grandes ideias e pensamenos profundos. Enquanto ensaboava o suvaco, pensava nas mil pequenas coisas que tenho que fazer. Umas são mais urgentes, outras nem tanto, mas sempre acabo priorizando as últimas. Por exemplo escrever um post inútil que vai ser lido por meia dúzia - se muito! - em vez de fazer todas aquelas outras coisas muito mais urgentes que mencionei. Azar, eu to com vontade de escrever, e gosto de satisfazer as minhas vontades.
Eu pensava precisamente numa papelada que tenho que enviar pro Toninho. Aí alguns neurônios resolveram se ligar e trocar uma ideia e eu acabei voltando alguns meses no tempo. Éramos ele e eu, no Uno, em algum ponto entre Novo Hamburgo e Santa Maria. Eu dirigia sob um céu nublado e ele, sentado no carona, fiscalizava cada milímetro dos meus movimentos como motorista. Não estava acostumado a ser "dirigido" e isso o incomodava. Aqui e ali, eu encostava na bunda de um caminhão e ultrapassava com o pé no fundo. O Toninho reinava, e eu retrucava qualquer coisa sobre sua idade avançada, ou alfinetava a própria insegurança de não estar no comando. Ele era obrigado a sorrir. E que sorriso fascinante! Nem para a mais engraçada das piadas ele perderá as rugas, ou melhor, linhas de expressão, que habitam o espaço entre suas sobrancelhas negras desde o tempo em que assumiu sua cara-de-sempre. Um tipo de máscara de carne, carrancuda, séria, do tipo que duvida de tudo e de todos; do tipo que tá pronta para a briga. O sorriso é sincero, a boca e os olhos não negam, mas a inqusidora expressão das sobrancelhas está lá, não cai.
Não lembro o que conversávamos. Provavelmente eu tentava arrancar alguma história do seu passado, tentando driblar a suas evasivas. Quem conhece o Toninho sabe do que falo. Não é homem de muitas palavras, muito menos o tipo de pai sábio que dá conselhos tirados de algum livro do Paulo Coelho. Mas foi que, no meio de uma dessas histórias que consegui extrair com esforço, ele diz, enquanto mira a estrada e guarda uma garrafa de suco de laranja no porta-luvas:
- Tem que aprender a ficar sozinho.
E, naquele momento, ele perdeu toda a minha atenção. Depois daquelas palavras, tudo o que eu soltava eram monossílabos positivos, concordantes com o que quiser que estivesse saindo de sua boca. As palavras ecoaram bonito dentro da minha cabeça, e continuaram a ecoar num vaivém que demorou alguns minutos a cessar. Aquela frase foi forte. Entretanto, perigosa, se dita sem contexto. Ele não se referia a viver sozinho, isolado numa cabana no meio do nada, tampouco a ser um solteirão anti-casamento - ele mesmo já se casou, pelo menos, umas cinco vezes! O que ele dizia é que é preciso saber viver aquele dia de folga em que todo mundo está trabalhando, ou aquele domingo em que ninguém está na cidade. Não enlouquecer por não ter ninguém ao redor, não mendigar atenção e por aí vai.
Meses passaram e eu continuo dando esporádica atenção àquele pensamento. Já fui longe com a questão, chegando a extrair alguns sentidos a mais, tipo estar sozinho é estar consigo mesmo e, portanto, saber estar sozinho e saber estar consigo mesmo; é se conhecer.
Porém, os já ditos neurônios fizeram outras ligações e me trouxeram de volta a um presente mais recente. Em fevereiro, conheci esse rapaz, o Lucindo, que estava envolvido com a amiga da Mariana, minha vizinha de quarto. Gaúcho de Uruguaiana, baixinho, chegou com uma cuia na mão e fazendo piada do Colorado, já que tinha visto o símbolo do campeão de tudo bordado nas minhas calças. Não entendi. Foi um daqueles comentários que não dava pra saber se estava sendo sarcástico, ainda mais porque eu não lembrava que havia um símbolo na minha calça, e fiquei pensando como que ele saberia pra qual time eu torcia. Mas tudo bem, passados os segundos embaraçosos em que ele teve que explicar a piada, a conversa seguiu bem regada a mate. Naquela tarde, descobri que era um quarentão - daquele tamainho - formado em turismo, tinha trabalhado na Feevale e agora trabalhava na cozinha de um restaurante, lavando pratos. À noite, íamos todos à despedida da Mariana num pub do centro da cidade. Sendo assim, ofereci a minha Sparkling Ale para degustação. Ele interessou-se pelo meu equipamento, que eu colocaria à venda assim que terminasse o próximo lote de cerveja, para o qual estava esperando os ingredientes chegarem pelo correio. Disse-lhe o preço e mais ou menos expliquei como era o processo. Mostrou-se definitivamente interessado na compra, e combinei que chamá-lo-ia para acompanhar o processo, quando estivesse produzindo o próximo lote.
Assim o fiz. Numa quinta-feira feia, choviscando, ele tocou a campainha de casa. Abri e ele entrou com a bicicleta molhada pela sala de estar, pela cozinha e finalmente estacionou-a no pequeno pátio atrás de casa. Era por volta de duas da tarde, quando nos abancamos na cozinha e preparamos um mate. Comecei em seguida os trabalhos. Parecia um video de "how to" desses do youtube. Enfim terminamos e almoçamos um bolinho de carne que ele trouxera. Continuamos a papear. Já era três, três e meia e o rapaz falava e falava e nada de se mexer pra ir embora. Comecei a responder em monossílabos. Dos monossílabos, passei a grunhidos. Depois peguei o celular e fiquei fuçando descaradamente, enquanto ele dizia umas asneiras meio racistas sobre gaúchos e nordestinos. Sim, porque ele se considerava um vencedor na vida, dê certo; quarentão, lavando pratos num restaurante, contribuindo uma barbaridade para o desenvolvimento da nação. O pior é que a chuva não dava trégua, e mesmo eu de saco cheio ainda tinha certo discernimento pra não mandar o cara embora embaixo d'água. Mas ele continuava falando com aquele tom de quem entende tudo e até o seu sotaque de Uruguaiana começou a incomodar. Fiquei no celular, grunhindo, considerando-me uma pessoa horrível, embora de saco cheio o bastante pra perdoar a mim mesmo. Finalmente, ele se tocou, lá pelas quatro passadas.
- Bom, acho que vou tomando meu rumo...
Hesitei alguns segundos antes de dizer "a pressa é tua..." Vai que ele decidia ficar mais um pouco. Felizmente, não, e fechei a porta deixando ele e sua bicicleta do lado de fora, embaixo de uma chuva fina. Não sem antes, combinarmos de sair pra uma cerveja "uma hora dessas". É claro que essa hora nunca chegou. Ao virar a chave, senti um alívio parecido com aquele depois de despachar aquela bosta dura, que te sai do rabo arranhando, depois de fazer muita força.
A moral da história então é que o Toninho só falou metade da lição. Tem que aprender a estar sozinho, sim; mas também tem que aprender a estar com os outros, coisa muito mais difícil.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Epílogo.

Eu já estava almoçando quando ela levantou e veio até a sala. Recebi-a com aquele tipo de sorriso que não é tanto da boca, mas mais dos olhos.
- Não fala nada!
- Eu não me atreveria.
Sentou no sofá. A dor de cabeça era visível. Não lembrava de muita coisa da noite anterior.
- Eu ia ficar impressionado se tu lembrasse...
- Lembro de ter beijado na boca, mas não é memória normal. Eu não consigo visualizar, só lembro da sensação do beijo. Você me beijou?
- ...
- Sério que não?
Um certo pavor trespassou pela face inchada de trago.
Sorri.
- Beijamos, sim.
- Ai que susto! Já achei que tinha beijado uma das meninas...
- Só isso que tu lembra?
- Só... por quê? Teve mais??
- Não. Não que eu tenha visto.

Quando o dito namorado chegou de Londres, eu estava largado no sofá de frente à TV, com o laptop no colo. Meu cérebro ordenava um "age normalmente" repetitivo e, de certa forma, nervoso. Não era medo. Na verdade, era sim. Não medo físico, entretanto. Era um medo emocional, se é que isso não é pleonasmo. Podia me defender muito bem numa briga de socos, mas era do stress da discussão e o clima pesado que permaneceria ali pra sempre que me assustava. A guria era louca o bastante pra ter relatado tudo pro cara, disso eu não duvidava.
Ele veio até mim. Apertamos as mãos. Contato visual. Sem sorrisinhos falsos, mas também não antipático. Pelo menos é isso que penso que transpareceu.
Poucos dias depois eu mudei de casa. Não por causa dos fatos ocorridos, porém. Alugara o quarto por um mês e o prazo esgotou-se.
Só a vi uma vez mais. Durante o trabalho.
Era qualquer coisa entre cinco e seis da tarde. Eu arruma alguns sapatos nas estantes. Terminei e encaminhei-me para outra estante e, no caminho, havia alguns pares jogados no chão. Abaixei e os peguei. Na subida, meus olhos deram de encontro com os dela, que vinha caminhando na minha direção. Não sei como nem porque, mas antes que meu cérebro desse em si de quem era, a cabeça já tinha virado de súbito, os meus olhos já tinham fugido e os braços já levantavam prontos pra trabalhar. Um segundo e ela passava por detrás das minhas costas, que temerosas esperavam um toque e um "eaí, vai fingir que não me viu?"
Mas não. Não houve toque, nem um "oi" irritado nem nada. Respirei e, mais calmo, pensei, indignado:
"Fazida..."

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Final

Pra ser sincero, não lembro quando exatamente foi a terceira noite. Talvez já no dia próximo, talvez no outro final de semana. Quebrei a cabeça tentando recordar, mas já me é impossível. Faz mais sentido pensar que foi no final de semana, pois todas as meninas participaram.
Então que naquela noite a boa era caipirinha. Limão, açúcar e vodka. As melhores coisas da vida são também as mais simples, dizem. Nossa amiga Paulista bebia como fosse água, e nossa amiga Gaúcha esquentava minha orelha mais uma vez com aquela conversa de "eu não vou cuidar de bêbado", ao que eu replicava um sorridente "não te preocupa" enquanto levava o copo cheio para a gente sabe quem. À noite foi indo com várias risadas e copos indo e vindo, cada vez com menos limão, cada vez com mais vodka.
Até que a Paulista surtou.
- Eu vou ligar pro Vítor!
- Não, você tá louca, não - retrucava a curitibana, num desespero tão preocupado que parecia simulação. A voz semi-ofegante e os olhinhos brilhando, alcoolicamente umedecidos.
- Eu preciso, cadê meu telefone??
Eu de pé, encostado à pia, com o copo à mão, sorria de leve. Entretanto, uma das minhas sobrancelhas começava a alçar-se...
- Não, Paulista, você tá bêbada, meu!
Ela levantou-se, visivelmente inebriada, à procura do telefone.
- Não, meu, não faz isso!
Também falou a Gaúcha:
- Para, Paulista. Tu não tá em condições de falar com o Vítor. Se tu ligar pra ele assim, tu só vai piorar as coisas.
Ela olhava pra cá e pra lá, procurando o telefone, que a Curitibana já havia pego.
- Por favor, eu tenho que ligar pra ele - e agora era quase um leve choro.
Puxei uma cadeira até onde ela estava.
- Senta aqui e te acalma.
- Isso, senta ali que vou pegar um copo d'água pra ti...
Bebeu um gole e botou de lado. Então, de supetão, levantou da cadeira e foi em direção ao precioso telefone. Não consigo pegá-lo, contudo. A outra menina foi mais ligeira. Peguei-a pela cintura e trouxe de volta à cadeira.
- Tu tem consciência que o que quiser que tu diga pra ele, vai transparecer que tu tá alterada e andou bebendo? Não tem como isso ser uma boa ideia.
Tudo chegou a um ponto em que eu, posicionado atrás dela, segurava gentilmente seus braços contra os da cadeira, enquanto ela murmurava que a Curitibana ia roubar o telefone dela. Eu a acalmava e fazia pouco das coisas ridículas que ela falava.
A certa altura, reparei que as duas outras se tinham retirado e cochichavam lá na porta de entrada. Cheguei meu rosto perto do dela e delicadamente trouxe seu queixo em minha direção. Era eu debruçado sobre o encosto da cadeira onde ela sentava e virava o pescoço, de forma que as duas bocas pudessem se encontrar. Beijamos por segundos, até que percebi que as duas caminhavam pelo corredor, vindo em nossa direção.

Não lembro o que aconteceu depois. Ela certamente se foi acalmando à medida que o àlcool foi deixando o cérebro. A única memória que tenho depois daquele beijo é de estar recostado no corredor em frente à porta do banheiro, onde ela estava. A impressão que tenho é de estar cuidando dela, enquanto as outras meninas tinham desaparecido. Estavam dormindo, provavelmente. Esperava ela sair porque visivelmente passava mal e só a deixara entrar depois de me prometer que não trancaria a porta.
Demorava a sair.
Bati na porta. Ninguém respondeu. Tentei novamente. Mais uma vez as batidas ecoaram pelo silencioso corredor. Entrei no banheiro.
Encontrei-a deitada de bruços na lajota fria do banheiro. Olhos fechados, boca semi-aberta. Um bocado de baba/vômito no chão perto do rosto. Um pedaço de papel higiênico, também. Acordei-a e a ajudei a levantar.
- Lava o rosto.
Ela resmungou qualquer coisa.
- Quê?
- Para...
- Lava logo eu vou te levar pra cama.
- Para, não quero que você me veja assim...
Abriu a torneira e lavava o rosto, enquanto eu dizia:
- Deixa de besteira, todo mundo já teve seus dias de porre e dormiu no banheiro...
Virou o rosto molhado pra me fitar.
- Você já?
Sorri.
- Não. Mas é normal...
- Ai, que vergonha.
Secou-se.
- Vem, vamos, vou te colocar na cama.
Ela virou-se e pude ver a blusa úmida de algo que eu não sabia - e nem queria saber - o que era. Segurei-a pela cintura e guiei-a pelos três ou quatro metros que separavam a porta do banheiro da do quarto.
- Tu não precisa fazer isso... Não precisa me cuidar... Por que tá fazendo isso... - a voz dela vibrava sonolenta e manhosa.
- Todo mundo precisa de ajuda, uma hora ou outra.
Chegamos à beirada da cama do casal que, na verdade, eram duas camadas de solteiro ajuntadas.
- Tira a blusa, tá toda molhada. Eu te ajudo.
- Não! Não quero que tu me veja nua...
"Ah tá..." pensei.
- Tudo bem, então tira tu mesma.
De costas pra mim, tirou rapidamente a blusa e atirou-se na cama.
- Por que tá fazendo isso... - ainda murmurou sonolenta.
- Boa noite.
- Boa noite...
Virei-me e apaguei a luz. Segurei a maçaneta da porta com minha mão direita e dei um passo à frente. Ia puxar a porta, quando a ouvi dizer, claramente, embora a voz tivesse saído abafada pelo travesseiro no qual ela afundara a cara:
- Eu te amo!

Congelei por meio segundo. O braço esticado, a mão na maçaneta. As pernas abertas e o tronco levemente inclinado à frente, ainda esperando para terminar o movimento de saída. As palavras ecoaram em meus ouvidos. Pensei no que aquilo significava.
Suspirei pesadamente e saí, fechando a porta atrás de mim.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Parte Quarta.

Agora, neste exato momento, faz mais de um ano que tudo foi dito e feito. A preguiça, mas também certo receio de não conseguir retratar os fatos com a acurácia necessária, fizeram com que deixasse para depois a tarefa de digitar, passar pra tela, não, pro disco, digo, pra rede, o desenrolar da narrativa. Azar. Agora o que resta é relatar, da forma mais fiel possível o que ainda lembro da inusitada sequência de palavras e expressões daquela personagem, tão real e irreal. Vai sair algo muito possivelmente diferente do que realmente aconteceu, porque a memória, como a carne, é fraca. Vai ser como aquelas histórias que a sua vó conta, quando chega a uma certa idade onde imaginação substitui as células que o cérebro já perdeu, quando ela diz algo como ter tido dois maridos (e aí tu te pergunta "mas quem foi esse segundo?") e o melhor a fazer é continuar perguntando e investigando e descobrir que a imaginação humana não tem mesmo limites. Não estou tão velho assim ainda, mas com certeza algumas células do time de um ano atrás já se queimaram pelo álcool, ou congelaram por causa do frio. Porém, mesmo não sendo a verdade propriamente completa, será a que restou e a que vai me acompanhar até o fim dos dias. E tendo dito isso, sigamos com a estória.

Depois de digitar e bebericar, a lata acabou por secar. Olhei pela janela e alguma claridade já entrava na sala. Eu queria digitar mais, aproveitar que estava tudo fresco na memória para poder retratar tudo com fidelidade, mas o sono chegara. Bocejei bonito, e decidi procrastinar.
Lembro de ter acordado lá pelo meio-dia. Tempo com cara de que chove e não molha. Meus pensamentos arrolavam acerca do que acontecera na noite anterior, e como que seria dali pra frente. Como dizer "bom dia" e coisa e tal. Sentei na cabeceira da mesa novamente, onde o laptop me esperava desde que o deixara ali ao clarear do mesmo dia. Pra onde o sol teria ido?

Fiquei algum tempo ratiando na frente da tela, até que ela apareceu.
- Bom dia.
Foi um bom dia sério. Não, não exatamente sério, mas neutro. Neutro com um quê de jovial. Acho que essa é a melhor forma que posso encontrar pra descrever aquele bom dia. Ela passou do corredor dos quartos direto para o sofá, onde sentou-se com seu laptop. O elefante branco ficou ali, no canto da sala/cozinha, de boa, tranquilo e sereno, até que ela perguntou, ainda fitando a telinha que tinha à frente:
- O que aconteceu ontem, Gaúcho?
- Tá brincando que tu não lembra...
- Eu lembro, mas não entendo...
- Pra mim tá bem claro... - a minha voz rolava calma - tu tava puta com o que teu namorado poderia tar fazendo lá em Londres e decidiu se vingar. Aí decidiu usar o primeiro cara que apareceu. E deu sorte que era um loirinho de olhos azuis - acrescentei com um sorriso.
Ela sorriu e tudo o que conseguiu dizer foi "aii..."

Aquela conversa não durou muito, pois eu tinha que sair pra fazer qualquer coisa e só voltei à noite, quando ela já tinha saído pra trabalhar. Era babá de três criancinhas inocentes.
No outro dia, acordei tarde. Nas minhas primeiras semanas de Irlanda, o que sabia melhor fazer era dormir. Beirava o meio-dia e eu tinha aquela fatal dúvida, se tomava café da manhã ou se pulava direto ao almoço. Fiz uma torrada. Depois de comer, voltei ao laptop. Abri a caixa de e-mails, li alguns, não li outros, excluí todos. Abri o Facebook. Pra minha surpresa, havia um recado dela no meu mural. "vai estudar mlk! Hahaha te encho ate pelo face! Kkkk". Primeiro, ponderei a respeito do significado da sigla. Era "muleke" ou "maluko"? Não importava, na verdade, mas eu, subconscientemente, tentava tirar de foco o fato de que ela postara algo no meu mural. Para as aparências, éramos, ou pensava eu que éramos, semi-desconhecidos que casualmente dividiam um apartamento por um curto período, sem contato maior que o superficial "dormiu bem" ou "será que chove?"
Uma frase casual que significava problema, até porque eu sabia o quão ciumento era o namorado, com o qual dividia o perfil no site de relacionamentos. Mas se fosse isso apenas, até estava bom. Acontece que se seguiram comentários de pessoas que conhecíamos em comum. Uma tripa de "hahaha's" e "hihihi's" que me fez enrugar a testa. Depois de tudo naquela noite, ainda aquilo.
Pensei muito em se deveria escrever algo. Diplomacia é uma arte: teria que ser alguma coisa muito neutra que tirasse qualquer suspeita de um "pode ter havido" - que realmente houve, é claro. Depois de minutos sem encontrar qualquer frase que causasse tal efeito, resolvi ignorar completamente. Fechei os dois olhos e me fiz de louco, como se nunca o tal post tivesse existido. Deixei-o lá, entretanto. Não o apaguei, porque talvez fosse até pior. Com o tempo, eu deletei, mas naquele momento não seria oportuno. Aquele pequeno conjunto de frases me perseguiu pelo dia inteiro.
À noite, ela voltou da casa onde trabalhava. Havia alguns restos de bebida que, automaticamente, demos fim. Era cedo, ainda, porém tarde pra se comprar mais álcool. Ficamos todos na sala, num clima de fim de festa, conversando sobre isso e aquilo sem muito ânimo. As meninas foram até a janela e começaram a mexer com os rapazes que passavam. Parecia mesmo que se divertiam, fingindo serem americanas. Os trouxas lá embaixo davam corda. Não lemro o que eu pensava sobre isso no momento, devia estar sorrindo de escárnio ou sinismo ou qualquer uma dessas coisas detestáveis. As pessoas foram aos poucos se recolhendo, ao ponto de restar a paulista e eu, cada um deitado em um dos sofás, procurando algo de inútil pra assistir na TV. Aqui e ali, ela entrava em assuntos mais profundos. Sinceramente, não lembro dos pormenores, mas devia girar em torno do namorado, família e blábláblá. Perguntava-me a mim mesmo por que ainda estava ali, por que ainda não me tinha recolhido como todo o resto.
É uma pena não poder reproduzir os diálogos, mas a próxima lembrança que tenho é de sentar no sofá em que ela estava deitada. Mirava-me com olhos semi-cerrados de sono ou torpor. Acariciei os cabelos negros, com leveza e zelo, sem olhar em seus olhos, porém.
- Por que você é tão cuidadoso... Por que você tá fazendo isso?
Pensei um instante.
- Não sei.
E era verdade.
- Transa comigo?
Parei, virei a cabeça e contemplei a janela. O sol já nascia. Voltei-me lentamente, comprimindo os lábios, os olhos desesperançosos de quem perdeu a batalha. Com um nó de preocupação entre os olhos, disse sim com um movimento leve de cabeça. Derrotado, fiz menção de curvar-me para beijá-la, mas ela já vinha em mina direção, com aquela boca e cabelos e pernas e peitos. Beijamos e, beijando, levantamos. Ali, em pé, ao lado da janela ficamos alguns instantes, o bastante para que minha mão deslizasse por aqui e por ali, cercando aquela mesma caverna que guardava o tesouro já conquistado, mas ainda não possuído. Surpreendi-me quando meus dedos trafegavam pela via principal, e não pelos acessos laterais, a falta daquele singelo tapete natural que estava ali ainda alguns dias atrás.
- Tu te preparou, né...
Ela sorriu e agarrou-me com força.
Uma porta abriu-se lá nos quartos. Nos afastamos depressa e, num clima indescritível, entrou a Gaúcha. Depois dos bom-dias, ela andou a preparar o seu café da manhã, enquanto a paulista encaminhou-se ao próprio quarto. Por minha vez, sente no sofá, fitando a TV, mas com a cabeça longe; vazia, na verdade. Passou alguns minutos, e então ouvi uma fechadura se trancar lá no corredor.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Parte Terceira

O beijo começou leve e carinhoso enquanto estávamos sentados junto a parede, mas depois acabei por deitá-la no chão forrado de carpete daquele corredor do último andar. Joguei meu corpo sobre o dela e começamos a nos beijar vorazmente. Eu tentava agarrar todas as partes daquele corpo ao mesmo tempo, enquanto ela apertava minhas costas, de modo a colar meu corpo no seu. Fiz uso das pernas para deixá-la ainda mais louca. Quando ela chegava num ponto de loucura, de me apertar vorazmente contra o próprio corpo, eu desacelerava. Voltava a beijá-la carinhosamente, acariciando seu cabelo. E então aumentava gradativamente o ritmo até chegar ao êxtase novamente. Numa dessas, ela jogou-me para o lado e se pôs em cima de mim, assumindo o controle de nosso descontrole. Minhas mãos passeavam de cá pra lá e então infiltraram-se no sutiã. Quando eu tinha tudo nas mãos, ela parou, levantou a cabeça e o corpo, permanecendo sentada/ajoelhada sobre mim.
- Para Gaúcho, ou eu vou transar com você aqui mesmo...
- Eu não to fazendo nada... - e sorri com inocência.
Ela fez uma negativa com a cabeça e deitou-se em cima de mim, beijando meu pescoço, afastando meu moletom para chegar ao ombro e todo e qualquer pedaço de pele que ela podia alcançar com a boca.
- Ai Gaúcho... - ela sussurrava aqui e ali.
Ficamos naquele esfrega-esfrega por alguns minutos, até que resolvi que era hora de descermos. Tomamos o elevador. Ela entrou primeiro, apertou o botão do terceiro andar e recostou-se ao lado dos botões. Eu entrei e posicionei me do outro lado. Estávamos frente-à-frente, separados por menos que meio metro pelo qual se podia enxergar o espelho.
Olhei meu reflexo. Cabelos bagunçados, moletom amarrotado. Dei um jeito no cabelo.
- Não pode desarrumar meu penteado assim - repreendi distraidamente.
- Gaúcho...
Quando terminei os reparos e voltei a recostar-me na parede do elevador, ela aproximou-se e pôs-se a ajeitar a gola da minha camiseta polo por sobre a gola V do moletom. Depois que terminou, como quem não quer nada, arriscou mais algumas investidas no pescoço. Subiu com a boca, procurando a minha, mas, ao chegar, encontrou apenas uma orelha. E, não se dando por vencida, mordiscou o lóbulo e, confesso, causou algum arrepio no meu couro. Deve ter percebido, pois recuou, com um meio-sorriso de garota se fazendo de difícil. Eu sorri um "entendi" e voltei-me pro espelho, colocando a gola de volta para dentro.
- Eu não uso assim. Todo mundo ia pensar que eu andei tirando a roupa...
- Seria bom se tivesse tirado.
- Talvez. A gente nunca vai saber.

Saímos do elevador e chegamos à porta do nosso apê. O cheiro de cebola estava naqueles corredores por anos e, depois de uma semana, já não incomoda mais tanto. Apartamento 17. Sempre adorei o tal dezessete. Não o apartamento, mas o número. Algo nele é bonito. Algo nele é ímpar, rá! Algo nele faz sentido, e é difícil explicar isso. Mas eu não tenho que explicar nada pra ninguém mesmo.
Entramos, mas não antes de ela tentar algo.
Ela foi ao banheiro e eu fui à sala. Olhei ao redor, silêncio. Recostei-me no sofá, mirando a noite escura pela janela. Cheiro de roupa lavada, que secava no varalzinho de armar. As outras gurias deviam já estar dormindo, ou transando lá no quarto que eu dividia com elas. Nah, não. Sorri sozinho.
Ela saiu do banheiro e parou na entrada da sala/cozinha.
- Você vem?
- O que o teu namorado ia pensar?
- Ele não tá aqui...
- Hm, mesmo assim. - Sorri.
- Boa noite, então?
- Boa noite.
- Ai, Gaúcho...
- Durma com os anjos.
Ela então saiu e eu a ouvi entrar no próprio quarto. Demorou um pouco para trancar a chave, porém. Eu era mais complicado do que eu pensava e era inútil ficar ali parado pensando no que eu eu fazia ou por que fazia. Era mais fácil escrever. Mais divertido, também. Mas, mais importante, é que dias ou meses ou anos depois eu iria ler e julgar. Talvez descobrir os porquês e tentar entender como se comportava o meu próprio ser. Lembrei das latas na geladeira. Abria a primeira enquanto o computador iniciava. Sentei, vendo que alguma claridade já começava a querer aparecer no horizonte, lá, além da janela. Tomei o primeiro gole e digitei as primeiras palavras, sem imaginar que ainda teria de escrever muitas outras.